Eu nunca fui boazinha.

Mas tem muita gente que vai dizer que eu era uma menina boazinha.



And still those voices are calling from far away
Wake you up in the middle of the night
Just to hear them say

Pois não, eu não era.
Eu era muito bobinha. Eu e meu mundinho particular.


Welcome to the Hotel California

Such a lovely place
Such a lovely place
Such a lovely face
Plenty of room at the Hotel California
Any time of year
Any time of year
You can find it here



Tem gente que tem grandes planos para o futuro. Pois eu não tinha. Meu futuro era um grande branco. Não sabia o que esperar, não sabia  o que deveria querer. Só uma coisa eu sempre tive (além da bobeirinha que, no fundo no fundo, acho que nunca me deixou): a vontade de fugir.

Daí que quando alguma coisa me chateava, quando alguma coisa me aborrecia, quando o mundo me mostrava que realmente ele não tinha nada a ver com o meu mundinho, a minha vontade sempre foi fugir. Sair andando, sem rumo. Somente duas vezes fiz isso. Mas sempre fui muito medrosa para ir além da esquina. E daí a eterna sensação de que ops, não era para eu estar aqui.

Continuo com a sensação de que não era mesmo.

As pessoas vão dizer, com certeza, que a minha infância foi boa. Que não me faltou nada, sempre tive pais presentes (de uma maneira estranha e muito particular, devo salientar), que sempre estudei em um bom colégio e tive o que quis.

Pois que o seja. Não falarei o contrário. Minto. Direi que me faltou algo, muito importante: perspectiva. E a realidade - que eu não era especial, que o mundo não se curvaria diante de minha magnificência e que eu (meu deus, que horror!) não seria a mais inteligente da minha turma e nem a líder da minha patotinha.

Mas diziam que eu era muito boazinha. 

No colégio todo mundo me adorava, todo mundo me conhecia.
Que mentira, madre santa, quanta abobrinha! 



But they just can't kill the beast


Mas só olhando daqui de fora (fingidamente de fora, falemos a verdade) eu tenho visão completa da loucura desse faz-de-conta, dessa coisa de se deixar levar pela cabeça alheia e criar uma história tão cor de rosa.

Talvez se o meu horizonte tivesse sido mais distante, talvez se eu tivesse esquecido o medo de dobrar a esquina, talvez se eu tivesse crescido como aquela/essa voz sempre me disse pra fazer (e ela repetia a exaustão que eu não era dali, que eu precisava pular da beira do penhasco), talvez as coisas tivessem, realmente, entrado nos eixos.

Mas não o foi.


You can check out any time you like

But you can never leave





E a sensação de querer fugir aqui permanece.


Comentários

Unknown disse…
Ou teriam saído dos eixos de forma horrorosa.
A gente sempre tem a sensação que outra alternativa teria sido melhor.
Bem, como eu sou mais velha, posso te dizer que chega uma hora, em que você olha pra trás e tudo, absolutamente tudo faz sentido e você reconhece que fez tudo certo, mesmo não tendo sido na hora que você esperava.
Acredite.
Eu sempre questionei isso.

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