Conheço a Morte

Em pessoa. Pois é. Ela se transmutou em adolescente.

Daí que a gente vê e tem vontade de fazer o sinal da cruz só pra garantir.

Coisas que só os EMOs fazem por você.

O caso é que a menina está no meio de um monte de adolescentes que fazem bullyuing até com a palavra bullying. E lá foi ela reclamar com o Papa:

- Eles ficam me chamando de Morte! Eu não sou a morte!

E o Papa ganha para lidar com esses conflitos, obviamente. E, obviamente, ele não pode chegar para a garota, mais branca que uma vela, de cabelo preto escorrido que cai tapando metade da cara e com aquele delineador negro que fez com que os tiozinhos do Kiss ficassem com inveja e dizer:

- Claro que você não é a Morte! Falta a foice.

Enfim, não pode. E chama os adolescentes bulinadores em questão e dá-lhes um esporro. Todo aquele discurso de "vocês não podem fazer isso, tem que respeitar as pessoas, ela não se parece com a morte e mais bla-bla-bla" e a cara dos moleques de "ok, ok, eu entendi" mas com o olhar de "você tá doido, Papa, se ela não é a morte ninguém mais é".

E saem todos da sala.

E o Papa olha pro demais:

- Mas, gente, só de olhar para ela dá calafrios! E todo mundo sabe, quando a gente sente calafrios é porque a morte está passando...


Mas é que tem desses milhões de tipos bizarros a minha volta. E eu não posso fazer nada e nem posso falar nada. Porque eu seria a pessoa má, a qual falta tato. 

E dia desses estava lá, quietinha, sentadinha, e me entra a doida do colégio. E quando eu digo que é doida não é algo que se dizem sobre a minha pessoa. Longe disso. A doida é doida o suficiente para não poder viver em sociedade. Mas, né, há toda essa coisa de inclusão e tem doido no meio de todo mundo. Só esqueceram a parte de fazer o tratamento para que tal inclusão seja possível, mas, enfim...

E daí a doida em questão estava ainda mais doida do que é normalmente e vem reclamar:

- Fulano me irrita! Ele não me deixa em paz! Eu não posso ficar lá! Ele não pára! Fulano me irrita! Ele não me deixa em paz! Eu  não posso ficar lá!

(e maluco tem essa coisa de repetir e repetir milhões de vezes a mesma coisa)

E está o Papa, novamente, pronto a acabar com os conflitos:

- Mas não ligue pro Fulano... Ele é um bobo!
- Mas ele fica me chamando de MALUCA! Ele fica me chamando de MALUCA! Eu não sou MALUCA! Fulano me irrita! Ele não me deixa em paz! Eu não posso ficar lá! Ele não pára! Fulano me irrita! Ele não me deixa em paz! Eu  não posso ficar lá! Ele fica me chamando de MALUCA! Eu não sou MALUCA! 

Daí que eu só olho, né. O que poderia fazer? E o Papa é tão calmo... 

- Ah, mas você não é maluca, né? Então!
- Eu não sou MALUCA! Mas ele fica me chamando de MALUCA!
- Não ligue para ele... Volta lá, fica lá, viu?
- Tá bom... - sai murmurando que não é maluca, mas daí volta, mostrando o caderno - copiei toda a matéria!
- Que bom... - O Papa ri, condescendente.
- Me dá um visto? Porque aí eu ganho ponto, né? Mas eu já passei EM TUDO! É tudo muito fácil, eu já passei. Me dá um visto?

E ele dá o visto.

Não, ela não é maluca. 
Maluca sou eu.

Mas tudo bem. A dificuldade é segurar o riso enquanto a pessoa não sai de perto. E dizer pro Papa que negar a realidade não muda os fatos. Que o caso era colocar a maluca em tratamento de verdade e não nessa coisa que nem paliativa é.

Mas quem sou eu para argumentar, não é mesmo. Ainda mais quando os meus remédios tarja preta acabaram.

Jesus, acende a luz que o negócio vai ficar frenético pro meu lado...




Comentários

Unknown disse…
Filha, tem escola dentro da Colônia Juliano Moreira?
E a morte?
Me danando de rir, quando vc descreveu a emo branca de olho pintado e Papa sentindo calafrios.
Sensacional!
Sim, temos que nos encontrar.
Terei mais tempo.

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